A batalha por uma Colômbia livre de amianto

By novembro 15, 2019Heróis em LatAm
Picture from TV where news about the prohibition of asbesto was being reported

“A missão foi cumprida” disse Daniel Pineda em frente ao Congresso da República, localizado no coração de Bogotá. Daniel lutou ao lado de sua esposa, Ana Cecilia Niño, por mais de 5 anos para fazer com que os legisladores colombianos aprovassem a lei que hoje proíbe o uso de amianto na Colômbia. 

Explorado e utilizado desde o século XIX, o amianto, fibra composta de pequenas partículas de minerais, rapidamente se tornou uma importante fonte natural para o desenvolvimento de infraestrutura e transporte em muitos países ao redor do mundo – especialmente no começo do século XX, quando seu uso na construção de isolamento, vestidos, pinturas, navios e automóveis havia se popularizado. 

Embora na Colômbia existissem muitos registros do uso desta fibra em projetos de construção, grandes dúvidas e preocupações em relação ao seu uso ganharam consciência pública quando o caso de Ana Cecilia Niño se tornou conhecido; exposta por mais de 20 anos ao amianto, desenvolveu um tipo de câncer chamado mesotelioma pleural. 

Até maio de 2019, a falta de provas concretas sobre os seus danos à saúde humana, testemunhas tímidas e dúvidas científicas sobre os efeitos da exposição a este material foram os maiores argumentos contra a proibição do uso de amianto na Colômbia. Isso acontecia a despeito de 68 dos 194 países em todo o mundo que proibiram o uso do amianto, incluindo vizinhos regionais como a Argentina, o Chile, o Uruguai e Honduras. 

Mesmo hoje, no século XXI, este material ainda é uma fibra fundamental para certas indústrias que defendem o seu uso e que dependem dele para sustentar a produção. No entanto, ao mesmo tempo, é um inimigo silencioso, porém letal, que está ferindo aqueles que acidentalmente o inspiram, fazendo com que permaneça – mesmo que em pequenas quantidades – em nosso sistema respiratório, causando eventualmente um tumor pulmonar maligno, que pode levar à morte prematura. 

Ana Cecilia Niño foi uma vítima desta fibra mineral e desde 2014, quando seu mesotelioma foi diagnosticado, começou a bater de porta em porta e contatar jornalistas para aumentar a consciência sobre a situação que ela e outros como ela estão enfrentando. Um caminho difícil, repleto de desafios nos âmbitos social, econômico e político seguiram a sua luta, mas no final tudo compensou. 

Em meio a um grande esforço que parecia ter eco algum, Ana Cecilia e seu marido, Daniel Pineda, se conheceram em 2015, com Marcela Pulido, uma jornalista e pesquisadora do Noticias Caracol, um dos mais assistidos telejornais da Colômbia dos últimos anos. 

Isso não foi mera coincidência. Marcela já havia noticiado o relato de uma vítima do amianto, desesperada para contar a sua história antes que morresse “para que nenhuma outra pessoa morra por esta razão”, conforme disse para a jornalista. 

 

Aumentando a consciência de toda a população

Picture of Marcela Pulido and her team from Noticias Caracol

Marcela, que soube desde o começo que, através de seu trabalho como jornalista, teria a habilidade de dar maior exposição a um problema que deveria estar na agenda do Governo Nacional e do Congresso devido à gravidade que isso representada. No entanto, ela teve um caminho complicado no início desse trabalho de campo: as vítimas não queriam falar, elas sentiam medo, elas não queriam mostrar seus rostos ou suas histórias; então os testemunhos eram poucos e as investigações jornalísticas eram dilatadas sem estarem aptas a aparecer na TV. 

Além disso, Marcela sabia que eram mais do que 25 casos de vítimas do amianto que manifestaram a sua voz e sua opinião, mas com medo de que os mais poderosos iriam silenciá-los a qualquer momento.  Em frente a isso, Marcela decidiu escrever algumas linhas sobre a investigação e denúncia social através de seu trabalho como repórter. 

O primeiro e mais importante é o objetivo de mostrar as dificuldades de casos individuais na mídia de massa, empoderando os afetados. Uma que a situação ganhou a consciência de cada vez mais pessoas, a “corte da opinião pública” deu às vítimas poder real para questionar companhias que manufaturavam produtos com problemas sérios não reportados sobre o seu risco para a saúde humana. Com o suporte da Caracol, tornou-se possível para as vítimas se juntarem em prol de uma investigação oficial completa pelo governo sobre o uso de amianto na Colômbia. 

Picture of Marcela Pulido and 6 victims of diseases caused by asbestos.

Nos primeiros relatórios, nenhuma empresa foi mencionada, entretanto, haviam explicações sobre produtos comuns contendo amianto em sua produção. Ao mesmo tempo, famílias começaram a se unir e batalhar ainda mais apesar da resistência da indústria. 

Enquanto jornalistas na TV Caracol estavam investigando e as famílias batalhavam, uma pesquisa alarmante veio à tona durante a Conferência Internacional do Ambiente e Saúde Ocupacional. Considerando apenas a Itália até 2014, houveram 1000 mortes ocasionadas pelo mesotelioma e 2000 pelo câncer de pulmão – ambas relacionadas à exposição ao amianto. 

Pesquisas como esta, juntamente à crescente de pesquisas públicas minuciosas começaram a pressionar o governo para mudar a regulamentação no uso de amianto, apesar disso, a esta altura ainda havia um longo caminho a ser percorrido. 

 

A bola de neve cresce

Com esta pesquisa internacional nas mãos de um dos maiores meios de comunicação do país, Marcela pediu ao Noticias Caracol permissão para divulgar em cada um de seus artigos o nome das empresas que ainda usavam amianto. O canal aceitou e, com a exposição desta enorme indústria, contra companhias como Eternit – que estava ativa há 75 anos na Colômbia – começaram a se juntar no Congresso da República, apoiados pelo seu dinheiro e influência em uma tentativa para estagnar quaisquer esforços em prol de mudanças regulamentares. 

Entre 2015 e 2016, conforme a campanha de Marcela ganha destaque, mais e mais vítimas e suas famílias suportam a aceleração desta – até mesmo ONGs internacionais como o Greenpeace juntam-se ao movimento, todos unidos sob um slogan: “Colombia Sin Asbesto” (Colômbia Sem Amianto).

Em meio a esta luta, as doenças relacionadas ao amianto começaram a levar a vida de alguns dos primeiros ativistas, os quais fizeram tanto para dar o impulso inicial à causa. Muitos desses entrevistados pelo Noticias Caracol, eventualmente perderam a sua batalha contra o Amianto. De qualquer forma, a campanha continuou a crescer em memória daqueles que se foram. 

“Em sequência a novos trabalhos acadêmicos efeitos na Universidade Nacional e a Universidade dos Andes que também apoiam a campanha por uma Colômbia livre de amianto,  Marcela Pulido conseguiu uma entrevista com o então Ministro da Saúde, Alejandro Gaviria, para falar do problema do amianto e como lidar com ele. A esta altura, a pressão das redes sociais e da mídia eram altas demais para que o lobby de indústrias pudesse resistir, e o apetite político do momento ofereceu grande suporte ao movimento.”

 

Missão Cumprida

Com a morte da Ana Cecilia Niño (rosto representante da campanha) em agosto de 2017, surgiu um trabalho de base para a criação de um projeto que, juntamente com a campanha “abrace seus pulmões”, fosse transformado em lei pelo novo presidente Iván Duque. A longa caminhada pelo banimento do amianto estava completa. 

“O que vem em seguida? Como um resultado da nova “Lei Ana Cecilia Niño”, corpos regulatórios irão proibir a extração e uso do amianto na colômbia a partir de Janeiro de 2021, e o amianto remanescente será gradativamente removido – na esperança de evitar mais vítimas desnecessárias de doenças causadas por esta fibra mineral. O grande destaque da campanha também ilustrou para o público os perigos do amianto e, com esta lei, a Colômbia poderá se tornar um lugar melhor. 

“Eu me sinto plena e satisfeita, pois eu nunca imaginei que uma obsessão jornalística iria nos levar tão longe e permitiria que eu entendesse que o jornalismo não tem apenas a capacidade de informar, mas também a capacidade de contribuir para a sociedade e o mundo todo”, conclui Marcela Pulido.

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